Cheira-vos a esturro ou a batatas a murro! Como não poderia deixar de cheirar?! Ò contadores de histórias rascas, tremei, que esta banha da cobra é autêntica e de qualidade cientificamente testada! Quais Aladinos qual carapuça! Que me caia um trovão se minto, senhores! Desentupi as orelhas e levantai-as como os cães! Os crimes de que vos vou falar não têm rival nem rimel! Preparai as unhas e os dentes, que há muito que roer!

 

 

 

 

Onde os Himalaias já mostram, ainda que tímidamente, a sua majestade (o que em giria local pode ser traduzido por “arreganham a fuça”) , Sabú, o cruel Vetala, vulgo vampiro, raptou todas as mulheres de uma aldeola. Quantas eram? Perguntam bem! Mais que o total dos dedos de uma familia e menos que o número de touros exigidos para uma hecatombe! Que humilhação! Que tragédia! Que desanimo!

 

Todos os barbudos machos que sobraram consultaram os careiros astrólogos e os um pouco mais baratos leitores de sina. Ofereceram toda a tralha que tinham mais a que não tinham a Kali (que não perdeu tempo a agradecer através de aparições treslocadas em santuários de outros deuses, o que, só piorava a situação e, como se diz nos jornais e na TV, exaltava os ânimos já de si inflamados da população). Também invocaram, e porque não?, a vaca da abundância e sei lá mais o quê! Ah! Ah! Ah! Em vão! Das mulheres, nem piu! Nem sequer nos mijadouros do Rossio!

 

 

Os nossos bons sadhus, bem-hajam, lá recitaram os seus intermináveis mantras, e experimentaram mil e uma posturas assim como a acumpuntura tibetana, conservada em tratados pelo budista vigarista Nagarjuna . Mas o tareco da tia Xica lá do sítio assustou-se e deu cabo dos atribulados esforços dos veneraveis homens. Então, para que não ficasse tudo em àguas de bacalhau, gritaram em uníssono ao deus dará: “Tragam reforços!”

 

 

O nosso já de si lendário heroi, Hari, o Aghori, que saído de um mais que profundo transe tinha acabado de despertar a sua Kundalini ( a sensacional “energia cómica/cósmica” que está adormecida sob forma de Serpente enroscada entre o cú e o fundo dos tomates de cada um ¾ caso sejam curiosos recomendo-vos  o livro “Os Chacras, a correr e ao pé coxinho”, da autoria de Barbarella Braga, edições do Bonfim, 1995), ouviu a milhares de kilometros de distância estes lamentos  espalhados aos sete mil ventos! “Porra! Que frete! Não me posso esquecer do canivete! Que o Shri Ganesha e Macgiwer me protejam!”

 

 

Quem não conhece o nosso Sherlock Holmes do Maharashtra, sempre acompanhado do seu discreto ajudante Ravi Chandra, o homem mais pequeno do mundo!? Tão pequeno que os japoneses o baptisaram de Bonsai Joe e atribuiram-lhe o grau de grão mestre da ordem dos polegarzinhos! Ele, (refiro-me ao Hari e não ao Ravi) que joga footbaal, e quiça cricket, com a própria cabeça! Que faz zapping com o fogo  em mais de um milhão de canais e que perfere ter um cranio como almofada do que o mais sedoso travesseiro de um Ritz de outras eras! Ele, cujos poderes mágicos ultrapassam os dos rshis . Ele, que se transforma nos mais esquisitos animais, mesmo nos Yetis e Mamutes deste e doutro mundo! Ele, que é capaz de viajar à velocidade da luz e que, diz-se, colocou uma bandeira indiana na lua muito antes desses nojentos Yankees! Ele, que foi campeão regional de ping-pong em 1978, actor principal de musicais com muito piri-piri em 1983 e dois anos mais tarde candidato a deputado pelo malogrado Bharata Janata Party! Uf!

 

 

Para encontrar as nossas talvez belas desaparecidas ele passou a pente fino os lupanares de Bangalore, as casas de òpio do Sião, as inóspitas ruínas de Angkor, as raves decadentes de Anjuna, as garajens das mafias de Bombaim, as milicias de guerrilheiros Tamil do Ceilão, os centros paroquiais de Pondichéry. Bom! Bom! Bom! Umas moeditas e poderei revelar-vos, a vocês e apenas a vocês, o que ele realmente descobriu!

 

 

Sim, tinha que haver um suspeito! Uma daquelas criaturas que fazem a sua vidinha como se não tivessem cortado a mamã em fatias! E que suspeito! Um pequeno maharaja que parecia entreter-se todas as tardes compondo poesia (no mais nobre estilo dos antigos Kavyas) com o seu papagaio louro, “Paquito”, autor, noutra reencarnação das famosas “histórias do papagaio”, e bebendo chá com açafrão e outras porcarias e especiarias que ele punha a ferver naquele bule com que o seu antepassado tinha queimado e cegado o emissário inglês que exigia ser o seu único protector! Sejamos francos! Não é de desconfiar de um homem com tais genes?!

 

 

Por ora menos mal! Pois este respeitável senhor era um pedófilo dos piores, com preferências òbvias pelas nádegas lisas de rapazes com buço! Tinha as suas complexas redes semi-clandestinas, com publicidade camuflada na Internet e entregava-se ao deboche com o líder do único partido da oposição do seu estado, um religioso fanático, defensor das virtudes e do regresso aos bons velhos tempos, e também com a lúbrica e revoltada Lakshmi, a filha do ilimitadamente corrupto ministro dos negócios estrangeiros! É claro que disfarçavam bem pois enquanto rolavam as cabeças dos tenros varões das mais humildes familias eles aproveitavam-se das piedosas doações dos ingénuos devotos comprando carros importados, jactos privados, apartamentos em Tóquio e cadeias de hoteis em Honolulu! É a história do costume!

 

 

Depois de usarem e abusarem das vitimas, ao ponto de as assassinarem, comiam algumas partes dos corpos em apoteoticos banquetes. O que restava seguia num carro de bois rustico digno de figurar num museu de etnologia. Finalmente eram abandonados na floresta, para delícia dos abutres, chacais e  seus semelhantes. A cena é suficientemente tétrica para dar vómitos! Mas se eram dados as amores pela criançada para que é que é queriam as fêmeas?! Tenham calma! Cada coisa a seu tempo!

 

Quem acabou por revelar tudo a Hari foi um velho “intocável” a quem o filho da cunhada da vizinha tinha morrido há meses e meses. Quando este esticou o pernil, desgraçado pelos extravagantes deboches,  jurou vingança sobre o que restava do cadáver, arrancando tufos de cabelo e prometendo jejuar até ao dia em que se fizesse justiça! Hari, disfarçado de cobra-capelo, escutou as suas preces e prometeu a judá-lo se este lhe revelásse a entrada secreta da tão badalada sala de torturas. Claro que o velho não teve papas na lingua e desatou numa tagarelice tal que o nosso heroi não teve outra solução senão amordaçá-lo eficazmente!

 

 

Mas, surpresa das surpresas, quando Hari derrotou os sinistros criminosos e encontrou as mulheres estas estavam gordas e saudáveis e quaze não se queixaram apesar de alguns olhos arrancados e marcas de horreis sevícias nos corpos que o nosso investigador conseguiu detectar através da sua visão raio X aprendida num curso subsidiado pela CIA e ministrado pelo Super-Homem. Hari libertou-as sem perder tempo, assim como às crianças e denunciou à imprensa e à policia a actividade dos horriveis malfeitores. O Maharaja era o tal Vetala . Mas, diabos,  havia uma míuda (aqui p’ra nós: “boa como o milho!”) pela qual ficara com um fraquinho! Ela era conhecida nas redondezas como o Lótus Mamalhudo! A sua delgadíssima cintura era a réplica exacta de uma Barbie Mistycal Manipura! Tinha o ar vulnerável de quem pertence a uma casta inferior, o cheiro intenso a ranço de manteiga clarificada, as borbulhas evidentes de uma Marylin na sua infeliz puberdade, etc, etc, etc.

 

 

Passou as semanas seguintes perturbadíssimo, tomando anseolíticos e carpindo as suas mágoas.Como poderia passar uma hora sem a ter ao seu lado!? Oh! Crueis cíumes de tudo tudo, até da nuvem passageira ou da brisa da tarde! O próprio Shukra, o seu elefante, estava indignado, bramindo de tal forma que os próprios deuses se assustavam! Mas Hari lá ficava, mudo e quedo! O amor é assim, senhores, até os mais astutos ficam estúpidos! Só o James Bond é que não!

 

 

Como o Shukra era um rapaz prestável vai daí e dirigiu-se a casa da bela ninfa  ajudando-a a lavar o cabelo e confessando-lhe que o seu amo a amava. Mas, para que as coisas ficassem em pratos limpos acabou por enumerar os mil e um defeitos do seu amo: não lavar os pés e o cú, ressonar que nem um abade, bater nas mulheres depois de se embebedar, não saber nenhum Upanishad de cór, etc. E não é que ela também gramava o gajo á brava! Foda-se! O amor tem às vezes estas coisas porreiras! Mas como não há bela sem senão a rapariguita afogou-se rápidamente num vale de lágrimas tão largo quanto o Ganges!

Querem saber um pouquito mais! É a história do costume! Os pretendentes podres, mas podres, de ricos! E uns velhotes bué da chatos, meu, já com dentadura postiça, lentes bifocais e cancro na próstata! E os melgas não a largavam, sempre a oferecer diamantes e o caraças! Ela passava-se, não é! Até se babavam, deixando poças à passagem de suas excelências! Está-se mesmo a ver que queriam era comê-la como a uma franguinha! E depois como é!?... O rancho de filhos e a comidita servida a horas, o broche antes do pequeno almoço!... Que se lixem!

 

 

Bom! Até houve um atrasado mental (desculpem-me a ousadia da expressão, mas é a unica apropriada!) que propôs aos  pais se eles não queriam uma dúzia e meia de camelos em troca! E não é que estes, sem tirar nem pôr, aceitaram, esfregando as mãos de contentamento! Só que as coisas têm que ser feitas segundo os conformes! Nada de pressas, é o que parece! Uma ova! É só paleio! Pois não é que marcaram o casamento para dali a uma semana com grupo musical contratado e tudo (os Bharata Doves cujo principal hit é o “La Paloma” com uns arranjos que não podiam ser mais foleiros, além, está claro, do “Strangers in the night” em instrumentos tradicionais seguido de incansaveis improvisações sobre o mesmo tema) ! Que séca!

 

E para cúmulo dos cúmulos o noivo eleito odiava gatos! Era o que faltava!...Mas...Não, não fujam, ò veneráveis ouvintes, que a história está por um fio. Pois ela tinha um plano dos bons: simples, sem subtilezas ou demoras. Matava-o e fugia com o Harizinho querido. Assim é que as coisas devem ser. E como é que o matava, ela que era femenina e fraca, com o ar casto de quem nunca sentiu os pelos do peito de um homem a roçarem-lhe as costas? Vá lá... Vá lá... todos sabem que as mulheres têm as suas manhas! Olha a Indira Ghandi que deus tem!

 

 

Todos os dias, pela fresca, o tal pretendente tomava pontualmente um banho na piscina da sua bruta mansão besuntando-se de seguida com umas pomadas nojentas recomendada pelos melhores doutores Ayurvédicos que, por sinal, lhe tinham diagnosticado excesso de Vata e carência de Pita. E que solução mais prática do que converter a inocente àgua num corrosivo àcido? Sejamos francos! A nossa amorosa dama não tinha mesmo escrupulos nenhuns. E o próprio Hari ficou assustado com os actos a que a força do amor leva.

 

 

Chegada a hora H, o supostamente pretendente mafioso largou a leitura dos sagrados puranas e perante o olhar melado de Ananda o seu bobi mergulhou na efevrescente piscina... Tantantantan...e ... surpresa das surpresas! Dá-se um milagre! O homem até se regozijou com o banho. A indignada homicida, que juntamente com o seu amante espiavam a cena correu para a àgua mergulhando a sua mão que rápidamente se derreteu gerando uma nuvem de vapor muito semelhante aquelas que aparecem nas bandas desenhadas.

 

É que o pretendente era uma encarnação do próprio deus Shiva (o Terrível, o Benevolente, o Destruídor Implacável!), e quiçá onosso querido Fernando Pessoa (supertrasladado!). Hari apercebendo-se da lição lançou-se a seus pés em reverência prometendo penitência. Agora meus senhores, tirem as conclusões se quizerem, mais as respectivas moralidades pequeno-burguesas que vos mantêm fãs dos produtos culturais mais mediocres, que eu apenas conto com a vossa generosidade e piedade. Uns trocos por favor! Ao menos a nota mais pequena!