CULTURA NACIONAL

 

a bem ou a mal da Nação!

 

Aceitar os males do reino é ser monarca do Universo: vociferou um dia Lao-Tsé (ou o raio que os parta!). A questão Homeostética está em rever o corpo (devidamente maquilhado) das insignificantes mitologias nacionais, não na sua negatividade (ò Tchang-Tseu, ò Scotus Erigena!), mas como qualquer coisa suscetivel de se perpétuar, de ter sequência.

 

A Tradição Moderna recusa para poder afirmar, a Tradição Homeostética afirma para poder recusar.

 

Que universalidades se podem constituir dentro deste território ilimitado em que vagamos?

 

É o mundo de Eça, de Agustina, de Ross Pyn, de M. Oliveira, de Nicolau Breyner, etc, etc. Ou será o mundo de Hollywood filtrado pelos olhos de olheiras saloias e da cassete-pirata?

 

Regresso ao território, a que nós, lisboetas, acossados pelo espectro de Ulisses/Odisseus, aquele que demora mais que os outros a regressar, que é ninguém e que ninguém reconhece, talvez nunca possamos regressar, porque somos outros ninguéns e nem nos espelhos nos reconhecemos. Por isso o nosso território é mítico, é essa tagarelice de geografias fantásticas, de mentiras de Fernão Mendes, de reinos de Além Mar, já que os de Aquem deixam muito a desejar.

 

Teremos um corpo comum? Teremos uma identidade do não-identico?

 

O que é que os Homeostéticos têm de semelhante? Será que se pode falar de uma geração com valores e práticas partilhados? Nós que fizemos a adolescência com um simulacro de revolução às costas? Nós, que não nos filiamos em partidos e não voltamos as costas à politica!

 

 

 

 

Vejamos bem! A Homeostética foi descritiva a dois niveis:

 

 

 


1.   O espaço português é um espaço de grandes tensões, de grandes deslizes, de mudanças súbitas. É o tipico caso de quem está a meio caminho entre o 1º e o 3º mundo, entre a idade média e a revolução informática, entre uma moralidade romano-cristã e outra anglo-capitalista. O lisboeta é um labrego em nova iorque, bebendo abundantemente do seu carrascão. Já tem nostalgia das lezírias mas deseja estar up-to-date. Acredita convictamente no Paraíso e acha sórdida a vida nocturna mas não sabe passar sem ela. O tempo passa e não passa. Existe uma febre, uma agitação. Os vidoeiros, os nenúfares, o break dance, os lúsiadas, o yoga, a bebedeira machista, o sofá quentinho, o cozido à portugueza, os Max Burgers, o show erótico do Ritz Club (Fellinni hiper-realista) depois de umas horas à porta do Hot Club. O bom lisboeta não tem dúvidas, porque as dúvidas não contribuem para a sua felicidade. O mau lisboeta (99,9%) tem ângustias porque as casas lisboetas têm janelas estreitas (será por causa do calor?). O bom lisboeta (nós?) põe muitas questões como quem tem as respostas nos bolsos. Afirma assim a polimorfia e a insolubilidade de enigmas desnecessários. Faz perguntas para que estas sejam incompletamente respondidas. O espaço português, por isso mesmo, faz rir. Está entre a fotonovela, o gongorismo, a seca tragédia grega, os comix strip ( colecção Texas Jack), os discursos bacocos dos oradores politicos, as piadas de gosto duvidoso, os axiomas secos de Spinoza e as conversas (com o eterno retorno dos bicos de papagaio) das porteiras. Este estado é ideal porque conjuga, ou põe em tensão, a viscosa cultura estrangeira (de uma forma omnivora, saloia, insaciável) e a nossa delicodoce (os italianos dirão morbida) tendência para a coceira e o colchão. Somos, por essência, fofos, moles, isto é, quase podres. Fruímos o que por cá se faz e o que lá de fora vem, vulgo imperialismo cultural, de uma forma pedantíssima. Discute-se  e fala-se sobretudo daquilo que se ignora, e de tanto se falar acabamos por saber alguma coisa. É como a filosofia: a certa altura subimos tão alto aos cumes de tais formidáveis palavras que a certa altura já não sabemos muito bem se aquilo quer dizer alguma coisa. Mas conversa é conversa, e mesmo quando não sabemos é melhor falar do que estar calado, porque saber, saber ao certo, nunca se sabe.


 

 

 

 

 

 

2.O visionarismo. Isto é, apesar disto o ir para a frente, sem queixumes, sem desculpas de miserabilismo. Temos no sangue uma espécie de ambição infatigável, mesmo que esta tenha contornos quinto-imperialistas. Grandes epopeias animadas pela típica e camoniana grandiloquência (neo-latina). Grandes obras, nem que seja à força, só pela escala. Grandes Utopias ( que mantemos subterraneas, escondidas de todos para que não nos ridicularizem). Sem ambições qualquer disciplina fica adiada. As pequenas ambições ficam-se sempre pela estrada, são o lastro burguês do ter lar, fazer filhos e ter uma carreira. Queremos mais! Queremos algo que não caiba na vida inteira!