Diário de bordo de Jean Sawarick

 

 

 

 

 

meu caro amigo:

 

 

Ah! Se saisse à rua, que desilusão! Aqui, pelo menos, os sinos tremem com os abalos da terra e os animais movem-se segundo os seus instintos mais básicos.

 

 

 

Pudera eu apaixonar-me pela imagem da mulher na minha cabeça! Pudera eu penetrar nela, mas por mais que caminhe o labirinto é insondável!

 

 

 

Ah! Se eu observasse bem os pequenos e dissimulados cantos!

 

 

 

Caramba! Tanta complicação para dizer que caminho sempre com o paraíso no alto da tola! Não acredito em nada! Não sei do que falo. Olho para a igreja em frente e vejo-a a fornicar apressadamente com centenas de crédulos. Que os fornique bem, pelo menos!

 

 

 

Montes de bosta!

 

 

 

E nós sonhamos com a delicada flor de laranjeira, ò Abdel Sarahafat el Kabir desilude-te das pessoas! É carne para canhão! A multidão anónima... não vale a pena! É o que eu acho, eu que em tempos por eles combati. Combati para que milhões de pessoas vivessem melhor e hoje em dia sou soberbamente elitista.

 

 

 

 

E nós sonhamos com a flor de laranjeira

com o vinho rodando em festa

com mulheres de Ceuta

sem véus, com anacoretas

bêbados e dançantes.

 

 

 

 

Ó Abdel, quando os camelos fazem amor dá-lhes pontapés e diz-lhes:

“saiam daí seus porcos infectos!”

 

 

 

 

Tu queres correr o mundo? Fica antes em casa. Lê muito, pinta, desenha e escreve. Toca no alaúde as pavanas do Carlos Gardel. Os copêndios de Aristóteles, Platão, Pascal e outros senhores doutos que como nós andam à deriva entre o concreto e o irreal.

 

 

 

Anacoreta louco e sulfuroso

foi à panónia provar ratos

beber sangue escanruchoso

de sultões heptomensodríacos

gente doida e sem cura.

 

 

 

Pois o mundo roda,

com a sua infinita paciência,

entre o grande e o pequeno

o cimo e o baixo?

 

 

 

Têm medo das mulheres

e só bebem sumo de abacate.

Sobem para cimo dos terraços

para vêrem a aviação passar.

 

 

Jean Sawarick