Manifesto

para a  vegetarianização

do pensamento

 

e seus derivados

e enlatados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Estilo  serve para pôr uma certa unidade e ordem na desordem radical do pensamento.

 

O Estilo põe visibilidade onde antes era cegueira, e os crentes andavam às apalpadelas.

 

 

 

 

 

U

ma visibilidade natural (biológica, não-sintética) de que a Terra estava grávida por excesso. A Terra é tudo quanto ainda há de mineral no pensamento. Rebenta vulcânicamente. O pensamento da Terra é o pensamento silêncioso da Vida Silenciosa, é o pensamento que é interregno entre catástrofes ditas naturais. A violência das catástrofes são os Manifestos da Terra. A Vida Silenciosa abunda em pequenas catástrofes que mimam e parodiam as grandes. O Estilo é um mimo desse mimo, uma paródia dessa paródia.

 

 

 

 

 

 

 

O que é exterior à Terra começa nas plantas: há no mundo vegetal um secreto desejo de emancipação, de desenraízamento, de deslocação com que o animal se satisfaz. Há no animal a nostalgia do enraízamento que o leva a marcar TERRITÓRIO.

 

 

 

A ambiguidade das Plantas é Uraniana. As plantas deixam-se comer para não permanecerem eternamente ligadas ao solo.

 

 

 

 

O

 homem não pode recuar à Terra senão na Morte. Toda a sua vida é um protesto contra a Morte, um lamento em face da Terra. Daí que ele assuma as reivindicações dos Animais e das Plantas e queira reintegrar em si todas as formas que eles procuram.

 

 

 

 

 

A visibilidade de que é portador é polimorfica, desenraízada, serve uma multidão de estilos que transformam uma desordem radical numa ordem plural.

 

 

 

 

O Antropomorfismo, só, é a demissão desse protesto, é o espelho reclinado para a zona anal, para uma higiene demente, cristalina, mortal. As perspectivas são irradiadas pela multiplicidade sensorial, partem da pele, dos olhos, das orelhas, do nariz, do sexo, do ânus. Um dia ouviremos falar do erotismo visual, olfactivo, epidérmico e auditivo.

 

N

ós percorremos essa escala, lideramos essa massa de protesto, essa revolta contra a mineralização e fossilização. As nossas perspectivas são multiplas e nómadas. Não se agarram a nada, são como um ornamento sulcando livre as várias dimensões do Espaço. Somos dominados pela necessidade de implacáveis metamorfoses. O nosso elemento é a transformação, o mobilis in mobile.

 

 

 

 

O nosso recuo, o nosso aparente arcaísmo, separa-nos não só dos demónios terrestres como dos demónios celestes. Os demónios que nos acompanham são híbridos, nascidos de cópulas entre estes dois atractores, ou de seus descendentes. Os daimones são os nossos representantes junto dos deuses, são os entreactores das nossas exaltações e agonias. Aquilo a que chamamos Cultura é o nosso ethos, não um território, mas uma cadeia de relações que se abre a todas as dimensões. Que esse ethos seja natural no seu desenraízamento, que a Cultura procure as suas ordens na desdomesticação.

 

 

 

 

O ESTILO está ao serviço de uma performatividade, isto é, forma e reforma o informe da TERRA.

 

 

 

 

 

 

 

Daí que multipliquemos os decisores, como num rio, cujas origens são multiplas fontes, e cujas àguas não deixam o SENTIDO quieto, mas profundamente inquieto.

 

 

Trabalhamos atrelados ao DIVERSO, contra as indistinções, fragmentados por uma harmonia verde e omnívora, exaltando todas as formas sexuais que começam na planta e que habitam desde aí o homem nas suas deambulações inquietas, celebrando o apetite por tudo o que floresce entre o Céu e a Terra.