MANIFESTOS

 (para uso pessoal)

 

anotados

revistos

&

corrigidos

 

Soluções?

Salvem-se se puderem!

(heterónimo anónimo)

 

 

H

á o amor,  sim senhor. Ligeiro, brutal, alado e cruel. Somos sacudidos por ele periodicamente, sofremos o anedótico, o erótico e os revés. As amantes lançam dardos que nos ferem os pés. As pirâmides são para os outros, são o remendo bicudo da eternidade a passar a ferro. Os mistérios são o míopismo do pensamento que não dá passos em frente nem para trás. As farsas espirituais não têm lugar no meu cabide. A profundidade é encontrada à força de tiques e suspiros. Aqui não há lugar para oceanos ou qualquer vastidão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No limitado está a Fortuna. Algo nos reflecte estupidamente e por momentos julgamo-nos espelhos. Sabe-se que as esfinges e os devidos enigmas correspondem a um gosto por perucas, rimel, verniz das unhas e o cheiro a acetona (e a azeitonas).

 

é fofa

é roliça

é galhofa

é hortaliça

 

 

 

O

s especializados consideravam do seu ângulo agudo que o único criticismo  era olhar para os umbigos (e os bigodes talvez). Tinham a mesma pastosa graça de quem se condena a têr graça a tempo inteiro. Nós tinhamo-nos condenado a essa tristeza, ilustre, austera e vil talvez, de ter desgraça por sobremesa (mas   antes...que festim!).

 

 

O

 heroísmo, moldado a plasticina, e vendido (Deus o sabe!) ao Diabo, não nos autorizava sequer a sermos rascas, ou canalhas, ou malditos, ou cantores de Fado. O desprezo abateu-se sobre nós, e em vez de saírmos para a rua, ficamos em casa, no mais terrível abandono.

 

é morena

é torneada

é  pequena

e amanteigada

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A

  estrada dos excessos, que, por engano, conduzia ao Palácio da Sabedoria, levou-nos ao Palácio das Gargalhadas estúpidas. Considerou-se que se tinha seguido a estratégia errada, e que tinhamos de  encontrar uma mais conforme os nossos virtuosos e nobres propósitos. Mas quem não sabe de seus defeitos não tem lugar para a alma no peito.

 

 

F

ez-se espionagem, e descobriu-se que a arma secreta dos nossos rivais era a Intiligência.  Ficamos parvos. Tanta palhaçada para nada. A nossa adaptação à Intiligência foi dolorosa, mas com resultados desiguais. Talvez tenhamos ficado a meio caminho, o que para já não é mau.

 

 

é geitosa

tão roliça

a manhosa

é estaladiça

 

 

 

C

onsiderada de longe esta aventura parceria irónica, mas a ironia foi apenas um acidente no  falhanço generalizado. Aos porcos o Triunfo!  Contentamo-nos, babamo-nos e continuamos na mesma. Uma tentativa nunca vem só, vem sempre mal acompanhada!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

N

a terminologia insistiamos em termos ôcos e pomposos como Metacatástrofe, o que queria dizer, mais ou menos, uma catástrofe às arrecuas. Este tipo de nomenclatura não serviu para seduzir ninguém. Só nos restavam conversas do género  és Carneiro, Balança ou Sagitário.

 

 

 

E

stavamos a ser usados pela sociedade pluralista e capitalista, como carne para canhão. Pastavamos, ruminavamos e pagavamos as contas de eletricidade. Um certo espirito naif e adolescentino persistia. Iamos para o campo lêr poemas às àrvores e apaixonavamo-nos platónicamente por raparigas louras com tranças que iam com a bilha à fonte.

 

 

 

N

ão queriamos pedir muito, mas o mundo estava a ser pelo menos mau, ou quase muito mau de um modo inconsequente, sem ser de propósito, com aquela maldade da qual aceitamos todas as desculpas embora seja indesculpável. Se o mundo fosse radicalmente mau, um distrito do Diabo, uma provincia subalterna do Inferno, então Satanás falhara. Que tortura ser protagonista das imperfeições do Bem e do Mal, actor da sua degradação, da sua prostituição. Cantavamos canções românticas:

 

 

 

Neste mundo

mau,mau,mau,

eu  vivo e sofro

sofro, sofro...

 

 

 

 

A

cabou-se o heroísmo, mas nada de resignações! Avante Camaradas!Avante!