O ÚLTIMO MANIFESTO

 

1988 (?)

 

 

 

 

Pois é: há uma grande dissolução por aí,

e os caniches passeiam-se

acompanhados dos respectivos galeristas nas exposições

e mijam o soalho e isto cheira mal.

 

 

 

Os Enigmas estão podres, ó nossa senhora!

E as nossas almas estão cheias de porcarias,

de ácidos provavelmente sulfuricos.

As esfinges andam de baloiço (um pouco fim de siécle).

São queridas, têm fofas mamas e um par de asinhas.

 

 

 

Nós ainda não estamos fartos (finalmente alguém diz isto).

 

 

 

Tivemos a sorte de ter nascido

num fim de qualquer coisa

menos século:

 

Uma época sofisticada,

anestesiada,

morna,

com falta de ponta.

 

 

Além do mais seremos acusados de machismo

e outros invariáveis ismos.

 

 

 

(bate punhetas pequena,

bate punhetas,

não há outra realidade senão bater punhetas!)

 

 

 

As nossas obras nasceram de cópulas com esfinges postiças!

 

 

A beleza dos “soutiens”, mas mais ainda daquilo que sustém.

 

 

 

Estamos fartos da pornografia,

do infantilismo,

da provocação que já não provoca nada,

das feiras cheias de arte conceptual,

dos truques maquiavélicos de promoção,

de toda esta prostituição social sem contrapartidas.

 

 

 

Queremos ser heróicos,

mas se calhar

ficar em casa

agarrados aos sofás,

mornos,

colados à televisão,

adormecendo com uma rapariga ao lado

fartos do esplendor quotidiano.

 

 

 

Temos idade para estar sossegadinhos,

quietos e irreprimíveis,

enclausurados,

absortos,

megalómanos.

 

 

Porque senão os comentadores desportivos da actualidade artística vêm daí, arreganham os dentes e “não estão para aturar brincadeiras adolescentes”?

 

 

Entretanto veio a máquina dos risos, triunfal com o seu ar vitalício e académico

 

meus senhores e minhas senhoras:

 

 

há quem diga que vamos ficar por aí,

aborrecidos,

a cismar,

a pensar em  Deus,

ou em valha-me deus.

 

Caducos,

Pesados,

gordos,

caindo para o tapete,

vamos acabar como toda a gente,

sem aquele ar jovial que nos caracterizava

E ainda bem (stop?)

 

 

 

“O tempo passou e ela não voltou...”

 

 

Teremos coragem para nos divorciarmos

das nossas futuras-ex-mulheres?

 

 

Será que vale a pena viver assim?

Teremos o direito de sermos inumanos.

 

As crianças crescem

e nós vamos passear com elas

e dar-lhes bom-bons com muito veneninho.

 

 

 

Os senhores dos ministérios vêm visitar-nos

para ver os nossos quadrinhos.

 

 

Somos seres ardentes e sociais.

 

 

 

E um riso homérico sacode-nos,

um riso terrivelmente inúmero

que pasta sobre as nossas sensações verdes.

 

 

 

Há idades para tudo,

uma para revoltas,

pastilhas elásticas e chupa-chupas

e outras para não ir a sitio nenhum e tratar da carreira (como deve ser?!)

 

 

 

Queremos a inteligência

porque é uma deusa parda ou incolor

Queremos a legitima estupidez

e todos os seus noivos.

 

 

 

Nós queremos uma arte cheia de tiques,

mas também não vale a pena pendurar carne podre.

Será que nos institucionalizaram?

É muito provável (bis)

Será que o queríamos?

É mais que provável (uh!)

 

 

 

Pobres constatários da nossa inércia piedosa.

 

 

O riso seria uma estratégia

de acordo com aquilo que a época pedia.

Ou será que a época pede piadas de mau gosto?

 

 

 

Nenhum de nós quis partir a loiça

ou os dentes

ou dar simplesmente caneladas por debaixo da mesa.

 

(melancolia!, dizia a minha tia – embora não se saiba exactamente o que é nem para que serve)

 

 

 

Imploramos ignorância

e deram-nos pão

contendo uma carcassa de frango resfriado.

 

 

 

Estamos excitados,

queremos fundir-nos com a mãe natureza,

ou apanhar uma bebedeira e dar uns vómitos,

ou cair para o lado de sono,

ou dormir a sesta.

 

 

 

Ora porra!, em certa medida até triunfamos!

 

 

 

Em vez de ficarmos numa litania de lamentos ad eternum

à espera que a glória bata à porta

e diga “venham daí, nunca é tarde”

sempre fizemos alguma coisita.

 

 

Mas a glória é uma chachada!

Pelo menos esta glóriazinha miserável e nacional,

embora não seja muito diferente

da outra glória

a que acena com cheques chorudos

e casas confortáveis

e tudo aquilo que queiramos comprar ou desejar.

 

 

A glória deve ser uma enorme chatice,

um aborrecimento,

uma vida a prestações,

algo parecido com

o absolutamente nada.

 

Uma magnifica postura –

 

 

 

Ó sr. Manuel Vieira veja lá faça qualquer coisinha

com um ar mais apresentável,

não seja displicente!

Ora porra queremos aplaudi-lo!

Trabalhe,

seja honesto,

mude um bocadinho,

nós até queremos ser os seus sensatos admiradores!

       grita um sem número de vózinhas

ao fundo da sala.

 

Alguns dos nossos amigos começaram a deprimir-se

quando a sua vida é o oásis

com que sonharam!

 (Foda-se, a minha mulher faz-me perder

o tesão?)

 

 

 

Queremos ou não ser académicos?

Vá lá, façam um jeitinho!

 

 

Se calhar ainda não começamos a ser verdadeiros homeostéticos,

andamos atrelados à nossa ironia,

e (como é óbvio)

cada vez mais individualistas,

fechados cada um na sua gaiola.

 

 

 

 

 

 

Não,

não temos espirito de revolta,

nem nunca tivemos.

 

Também não fundamos comunidades pseudo-friques.

 

 

 

Um dia destes acordamos

e desatamos aos tiros uns aos outros.

 

 

 

A nossa moral podia ter sido

“tanto faz”,

mas não foi.

 

 

Aqui para nós,

não podia ter existido um desses amáveis períodos heróicos

de que os historiadores de arte se gabam,

e talvez,

como milhares de jovenzinhos em principio de carreira,

se tenha dado aquela excitação com nostalgia ao fundo

pelo que se passou três ou quatro gerações atrás?

 

 

 

 

 

Mas não

Nós queríamos ter uma relação com as senhoras musas

e as coisas do passado,

uma relação digamos como que despreocupada,

sem aqueles tiques de suores

e lágrimas e suspiros

e um ar extremamente circunspecto e funerário.

 

 

 

 

Não queríamos nem queremos ser sérios

Os críticos marxistas transatlânticos devem pensar que somos macacos para entreter esta post-sociedade com mais um ingénuo e deplorável espectáculo

“entertainers” num vazio com uma plateia de marionetes.

 

 

 

A revolta idealista como quem está de férias,

ou impressionisticamente vá para o campo

para olhar para as paisagens

indiferentes e polutas.

 

 

 

O campo! Blurps!

Essa coisa que nos engorda e nos acalma!

 

 

 

 

E os deuses no seu olimpo de bricolage

meu caro,

e você que anda para aí a dizer coisas ao calhas

deite-se  fume um cigarro e sinta-se relaxado,

tome um Lexotan

e deixe o seu espirito afogar-se numa doce mistura

de Nada com Qualquer coisa.

 

 

 

A recessão vem aí,

ou então já estamos nela,

e andam todos alarmados etc e tal,

 

 

 

 

o espirito apocalíptico está na raça,

como um vírus

que a atravessa duma ponta a outra.

 

 

 

 

Depois vamos para os bares esperar que eles fechem

e a seguir vamos discutir para casa porque chegamos tarde,

e a pessoa com quem vivemos dirá

como somos egoístas

e que não pensamos nas coisas

ou que somos aéreos e despistados,

vitimas injustificadas de um egocentrismo

que temos às vezes

quando calha:

 

 

 

cavaleiros de um narcisismo espatifado!

 

 

 

não somos justos,

mas apesar de tudo as pessoas lá nos vão amando

dia após dia.

 

 

 

o Pedro Portugal diz que não pensa – (risadas)

 

 

 

“o amor é para mim duvida alucinante” –

dizia o Manuel Vieira.

 

 

 

Caramba!